Entrevista com Paulo Nazareth

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por Brígida Campbell

O entrevistado da primeira edição da Revista Eletrônica do CEIA é Paulo Nazareth, que em meio a correria da MIP2,  gentilmente respondeu  minhas perguntas, que seguem abaixo:

Um dos traços principais de sua obra é o fato de você, como artista, apontar sempre para a afirmação de que a Arte está em todos os lugares e coisas e pode ser feita por qualquer pessoa. Inclusive em alguns trabalhos o espectador é a própria obra, o que nos amplia ainda a idéia de participação. Como você pensa essa diluição da obra de arte no cotidiano, e como o cotidiano faz parte e alimenta o seu processo criativo? Gostaria que você comentasse um pouco sobre isso.

_Nossa, nem sei como isso começou. Mas fico pensando que “tal Obra”  pode estar em qualquer lugar mesmo. Gosto de ver os papéis velhos sobre a mesa, o chão ou qualquer lugar sofrendo a ação do tempo. Acho que a arte pode se misturar com nossa vida. Gosto de ver os “guardados” de minha mãe, papeis velhos que carregam uma história tem marcas de dobras uma mancha…  acho divertido quando os vizinhos do Bairro, estão levantando um muro e dizem brincando: Olha Paulo, isso aqui e arte! ; eu sempre respondo: É verdade !  Há  vezes em que alguns , brincando ou não , me oferecem , uma gaiola velha , como presente e outros querem me vender algo. È bacana ouvi-los dizer que sou artesão …  Minha madrinha dizia: “ele tem cabeça de teatro”. Outro dia encontrei com o Raul , o Zoé, e ele falou qualquer coisa mais ou menos assim  : “oh poeta ! Cara eu sempre te vejo por aí , eles acham que você é um ‘doidão’, mas você é um artista” . E eu fiquei feliz com isso , acho que não qualquer um, que estava percebendo essa “arte” do cotidiano. Acho que as coisas estão no mundo e por mais que se queira não podemos isolá-las  do mesmo. As coisas nem sempre ocorrem como planejamos e acho maravilhoso que por mais que queiramos não temos o controle dos acontecimentos, talvez eu me alimente dessas coisas , desses fracassos diários … fracassos enquanto tentativas de controlar o cotidiano … sei lá acho que todo dia é diferente mesmo parecendo igual … temos que fazer um esforço pra perceber essas mudanças que são lentas …

Ao ver o seu trabalho tenho a impressão de que caminhamos com você por todos os lugares reais e imaginários por onde você passa. É extremamente instigante perceber a maneira como se conectam, através do seu trabalho, informações e realidades tão distintas, sejam geograficamente ou culturalmente. De onde vem a conexão de tantas coisas a principio sem sentido. Como você pensa que a arte pode dar sentido a essas coisas/objetos/mensagens?

_Nossa Senhora d´ Aparecida, como diz minha mãe, realmente eu não sei muito, não. Mas eu acho que tudo está ligado , tem essa coisa de que o mundo é redondo. e as pessoas sempre saíram de um lugar e foram pra outro. Sendo criados por Deus , ou por um fenômeno físico que gerou qualquer coisa que depois veio a ser um ser vivo até chegar nos primeiros humanos;  então essas coisas que são gente e não gente  fazem tudo parte de um mesmo assunto. Não sei mesmo, mas penso que tudo pode ter sentido , acho que podemos encontrar pontos em comum entre um homem daqui do “Palmital”  e um homem de um ponto qualquer do Camboja, ou qualquer outro lugar, não somente por questões da globalização , mas por questões da vida e da “ história “ …  talvez algo que ainda não percebemos. Não sei como a arte pode dar sentido a tudo isso …  mas depois que comecei a fazer / pensar / fazer  arte passei a ver as coisas um pouco diferentes , parece que as coisas vão se desdobrando diante de nossos olhos …  tudo passa a ter sentido .  E quem não percebe isso acho que estamos ou somos loucos …  continuamos sofrendo e tendo prazeres como os outros , mas,talvez, começamos a ter consciência disso

“Paulo Nazareth Arte Contemporânea e Edições Limitadas” é uma espécie de empresa/entidade que está por trás das suas obras. De alguma maneira sinto que essa empresa é uma brincadeira (uma brincadeira séria) com o sistema de arte e a maneira as vezes cruel como uma proposta pode ser legitimada ou não, entrar ou não para o sistema das artes… Podemos ver essa crítica ao modo como o sistema opera em vários de seus trabalhos. Como você pensa essa relação entre coisas?

_Epá! Você falou que as perguntas não eram muito difíceis. Agora vou ter que dar conta disso! Bem agora eu tenho uma FIRMA ( nome que dizem em Governador Valadares, para designar uma empresa) e tem a ver com assinatura, acho que eu sempre tive uma firma. Sim esse negocio é em parte uma “brincadeira” , mas minha empresa é muito séria, embora  ainda não tenhamos  condições de pagar impostos e fornecer nota fiscal. Penso que o sistema de arte é complexo e cruel para legitimar as coisas, não consigo entendê-lo direito, deve ser outra ciência, com bases matemáticas, porem algo  mais complicado, não ensinam isso nas escolas. Deve ter algo a ver com especulação , sei lá , é muito difícil de entender. Mas essas questões a parte eu sou  responsável por meu trabalho e tenho que legitimá-lo. Se acredito no que faço devo continuar fazendo. E isso é cada vez mais possível de se fazer , com essa evolução de Internet por exemplo, o meio virtual se tornou um espaço para legitimar nosso trabalho, e não precisamos deixar de lado os meios antigos, cartazes, panfletos, etc …  Mas tenho continuar tocando no assunto …

Outro aspecto interessante do seu trabalho é a sua produção gráfica. Re-visitando as mídias populares de panfletos e cartazes inserindo, no entanto, informações de uma outra natureza, ou recolocando-os em outras situações. Como opera esse universo comunicacional que você cria e como a comunicação de massa entra no seu processo criativo?

_  Penso que tudo faz parte de uma coisa só, sou gravurista  apaixonado por essa modalidade de arte , e também me fascina as  cosias que ocorrem com a palavra. Então costumo juntar palavra e gravura em um só lugar, as vezes acho que esses trabalhos tem qualquer coisas em comum com o cordel. São uma espécie de contra literatura , sei lá.  E como o cordel podem ser lidos falados, etc… tem algo de performático aí ….  è a produção gráfica não se separa da vida … Nesses últimos dias , ouvi algo sobre teatro e vida e que os dois não devem ser misturados; não sei mas acho que bastou estar no mundo pra ter uma relação com a vida. Então é isso acredito que a arte esta extremante ligada com a vida , mesmo que não seja realista, ou que conte “verdades”.  Pra não fugir da pergunta penso que meu universo se esbarra muito no universo do outro e a comunicação de massa está sempre se esbarrando em mim por que estou no meio dos outros e as fezes posso fazer parte da massa, mas tenho que estar consciente disso

Gostaria de que você falasse agora mais especificamente sobre performances. Em seu trabalho como você pensa essa criação de situações cuja presença do corpo é indispensável. Como convivem em seu processo criativo, ações tão silenciosas e outras tão gritantes?

_  Quantas vezes já usei a palavra, “ acho, penso , acredito”  ? Agora vou usar creio, bem acho que deve fazer parte da entrevista! Então creio que o corpo está presente o tempo todo em qualquer trabalho,  se faço um desenho, gravura, escultura, etc , o corpo está ali , não tenho como me desvencilhar dele, eu sou corpo e ele é minha primeira ferramenta de trabalho, uso os olho para apreender uma imagem reelaboro-a e uso as mão para recriá-la com auxilio de um ‘contenedor’ de tinta, um lápis ou caneta. O que talvez diferencie a “performance”  é que no ato da exposição o corpo está ali presente , diferente de outra forma de arte visual em que podemos nos desligar do corpo (ao) vivo. Gosto de estar inserido dentro da “obra”  por que nesse momento ela é vivo e eu gosto de estar vivo. Não sei como essas coisas de silencio e grito se relacionam exatamente , mas talvez um faça parte do outro, o silêncio pode ser tão estrondoso quanto um grito e em meio a um grito pode haver o silêncio. Será que isso parece qualquer  a ver com “o Mestre dos Magos” da “Caverna do Dragão” ? Ou Paulo Coelho ?  Outro dia um amigo me lembrou  que sempre tínhamos uma lição de moral ao final dos episódios de He-Man .

Gostaria que você comentasse um pouco sobre a sua experiência de residência na Índia. Como foi transitar/perambular e criar ações performáticas em um lugar ao mesmo tempo tão diferente e tão parecido com o Brasil?

_ Estar na  Índia foi maravilhoso , pois foi a primeira vez que saí do Brasil e não falava uma única palavra da Língua Universal de Contato, o Inglês, e isso me fez perceber aquele mundo de outra maneira, era como se estivesse nascendo  de novo já com um conhecimento prévio do mundo. E’ como você disse ‘e um lugar bem diferente daqui e ao mesmo tempo parecido , olhava para as pessoas e pensava:puxa como se parecem com meus vizinhos. E quando abriam a boca e falavam língua estranha parecia que estavam brincando, aquela coisa de blablação, [esse computador, parece de inglês, não  tem cedilha e um monte de coisa; agora tem] voltando ao assunto , eram tão parecidos e diferentes., comecei a buscar pontos em comum, j;’a gostava dessa de línguas , e comecei a mi interessar mais ainda. apesar de não falar inglês costumava me comunicar com todo mundo , ou melhor interagir. Teve um dia que fui para uma praça  e fiquei conversando com um cara e acho que ele aprendeu algo de português. Riamos muito. Eu aprendi algumas palavras em hindi. Sei lá, como: obrigado /schucria/, irmão /bhair/, água de beber /pani pinaa /,etc  . “Água pura para homens profanos / ou seculares” foi um trabalho que comecei a pensar aqui, quando me disseram para não beber ‘água em Índia, que não fosse mineral, levei um filtro brasileiro, para uma ação , que consistia em distribuir água filtrada as pessoas que estavam nas ruas de Nova Delhi. Pensava em minha condição de estrangeiro naquele pais , as vezes me sentia parecido e as f vezes muito diferente. Usei isso em meus trabalhos, quando me propus a pagar uma moeda a quem soubesse de onde eu era e e 100 moedas a quem soubesse o que fazia, e também em “important Public notice” quando caminhava nas ruas e distribuía um texto falando de minha condição de naquele pais e no mundo. Todo dia era novo e por causa de meu cabelo /blék pauer/ sempre me olhavam como alguém diferente , mas acho que eu era algo como um anti-herói. Pensava muito no Macunaíma , acho que naquele lugar,me tornei algo parecido. Houve vezes em que me encontrei perdido nas ruas de Delhe , e em outras pequenas cidades do Norte e em Mumbai, algumas vezes momentos pensei que não iria mais voltar pra casa de tão perdido que estava. Não sei mas acho que quando retornei, pra casa, comecei a perceber melhor nossa língua, as vezes consigo me abstrair e ouvir as pessoas com um certo estrangeirismo, como se não compreendesse o que estão dizendo , mas ouvindo apenas os sons …

Gostaria de fazer mais algum comentário?

Não sei , acho que vou continuar fazendo meus ‘negócios’, acredito que sempre aprendo um pouquinho a cada dia. Meu computador “deu pau”, falta as letras m,k,j,espaço, não entra na internete e meu acesso a ‘rede’ está meio dificultado. Mas logo conserta. Estou  em Belo Horizonte, e tem muita gente sem internete. Por que tem gente que acha que isso da coisa da Roça ( agora tenho cedilha).Tem gente que fica muito aborrecido se pergunto se tem acesso a isso , internete. Estou dizendo essas coisas , aparentemente corriqueiras , sem importância, só pra lembrarmos que precariedade e tecnologia coabitam o mesmo espaço geográfico e temporal Agradecido.

* erros de digitação e ortografia foram mantidos a pedido do artista.


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